ANJOS × ESPÍRITO SANTOUMA INVESTIGAÇÃO BÍBLICA
ÍndiceINVESTIGAÇÃO — 21%
Aa

CAPÍTULO 8

Quem intercede por nós?

BRUNO AUGUSTO BRANDI

CAPÍTULO 8

QUEM INTERCEDE POR NÓS?

Existe uma palavra que muda completamente a nossa investigação:

intercessão.

Até aqui, vimos anjos enviados para transmitir mensagens, executar missões, conduzir pessoas, proteger, libertar e, em determinados momentos, comunicar aquilo que Deus determinou.

Também vimos que o Espírito Santo ensina, guia, fala, envia e habita nos discípulos.

Mas agora precisamos entrar em um território mais íntimo.

Quem intercede por nós?

Essa pergunta não é pequena.

Interceder significa colocar-se em favor de alguém, apresentar uma causa, agir em benefício de outra pessoa.

E o Novo Testamento utiliza uma linguagem surpreendentemente forte quando fala do Espírito Santo:

“O mesmo Espírito intercede por nós com gemidos inexprimíveis.”

Romanos 8:26.

Aqui não estamos diante de uma simples transmissão de informação.

Estamos diante de intercessão.

E isso nos leva diretamente ao coração da nossa investigação.

8.1 — O Espírito conhece aquilo que não conseguimos expressar

Paulo começa dizendo:

“E da mesma maneira também o Espírito ajuda as nossas fraquezas.”

Existe algo profundamente humano nessa frase.

Nós somos limitados.

Nem sempre sabemos orar.

Nem sempre conseguimos organizar aquilo que sentimos.

Nem sempre sabemos exatamente o que pedir.

Há momentos em que sabemos apenas que precisamos de Deus.

A oração existe.

Mas as palavras faltam.

É justamente nesse cenário que Paulo apresenta a atuação do Espírito Santo.

“Porque não sabemos o que havemos de pedir como convém, mas o mesmo Espírito intercede por nós...”

Observe a profundidade da afirmação.

O Espírito não está simplesmente entregando uma mensagem para nós.

Ele está atuando em nossa fraqueza.

Ele participa da nossa incapacidade de orar adequadamente.

Ele intercede.

8.2 — Existe uma intimidade aqui que não encontramos na descrição dos anjos

Precisamos tomar cuidado.

Isso não significa que os anjos sejam incapazes de servir em favor dos seres humanos.

O próprio Novo Testamento chama os anjos de:

“espíritos ministradores, enviados para servir a favor dos que hão de herdar a salvação.”

Hebreus 1:14.

Portanto, os anjos podem servir aos que pertencem a Deus.

Isso está claramente no texto.

Mas observe a diferença.

Hebreus fala de serviço.

Romanos 8 fala de intercessão do Espírito.

Não devemos transformar essas duas coisas em sinônimos.

Um ministro pode servir alguém.

Um intercessor pode colocar-se diante de Deus em favor de alguém.

As funções podem se relacionar, mas não são automaticamente idênticas.

8.3 — O Espírito não apenas está perto: Ele está em nós

Aqui retornamos à promessa de Jesus.

“Ele habita convosco e estará em vós.”

João 14:17.

Essa afirmação ganha uma força ainda maior quando lida ao lado de Romanos 8.

O Espírito que está em nós é o Espírito que intercede por nós.

Isso cria uma proximidade absolutamente singular.

Não é simplesmente:

Deus envia um mensageiro até mim.

É:

Deus habita em mim por meio do Espírito.

E isso muda a própria estrutura da espiritualidade cristã.

8.4 — O Espírito como testemunha interior

João não é o único a falar sobre essa atuação.

Paulo escreve:

“O próprio Espírito testifica com o nosso espírito que somos filhos de Deus.”

Romanos 8:16.

Agora temos outra função:

testemunhar.

O Espírito Santo não apenas comunica algo externo.

Ele testemunha com o nosso espírito.

Isso é uma linguagem de relacionamento.

E novamente precisamos fazer uma distinção.

Um anjo pode aparecer diante de uma pessoa.

Um anjo pode falar.

Um anjo pode entregar uma mensagem.

Mas Paulo está descrevendo uma atuação interior do Espírito.

Isso não significa que Deus jamais possa produzir uma experiência externa.

Significa que a vida cristã não depende de manifestações angelicais para que o crente tenha comunhão com Deus.

A presença prometida por Cristo já está presente.

8.5 — O Espírito conduz os filhos de Deus

Poucos versículos antes, Paulo escreve:

“Porque todos os que são guiados pelo Espírito de Deus, esses são filhos de Deus.”

Romanos 8:14.

Essa frase precisa ser colocada ao lado de João 16:13:

“Ele vos guiará a toda a verdade.”

Agora temos três textos trabalhando juntos:

João 14: o Espírito ensina.

João 16: o Espírito guia.

Romanos 8: os filhos de Deus são guiados pelo Espírito.

Isso não é um detalhe secundário.

É uma estrutura inteira de vida espiritual.

O cristão não é apresentado como alguém que precisa procurar constantemente uma entidade celestial para receber instruções.

Ele é apresentado como alguém que vive sob a direção do Espírito de Deus.

8.6 — Então Deus nunca usa anjos para orientar alguém?

Não podemos chegar a essa conclusão.

A Bíblia não permite.

Pedro foi conduzido por um anjo.

José recebeu orientação por meio de sonhos.

Paulo recebeu uma mensagem angelical durante a tempestade.

Há diversos episódios em que Deus utiliza meios extraordinários.

O problema não é Deus usar um meio extraordinário.

O problema é transformar o meio em método obrigatório.

Existe uma diferença enorme entre:

“Deus enviou um anjo.”

e:

“Eu preciso buscar anjos para descobrir a vontade de Deus.”

A primeira afirmação pode ser encontrada na Bíblia.

A segunda precisa ser examinada cuidadosamente.

8.7 — A Bíblia nunca apresenta a busca por anjos como prática normal da Igreja

Esse ponto merece atenção.

Quando observamos a vida da Igreja no livro de Atos, encontramos:

oração;

jejum;

Escrituras;

comunhão;

discernimento;

profecia;

dons espirituais;

direção do Espírito Santo;

decisões comunitárias;

pregação de Cristo.

Mas não encontramos uma prática estabelecida de:

buscar anjos.

Não encontramos reuniões organizadas para invocar Gabriel.

Não encontramos os apóstolos ensinando os cristãos a chamar anjos para obter orientação.

Não encontramos instruções para estabelecer comunicação com seres angelicais.

Isso é extremamente significativo.

Porque o Novo Testamento poderia ter feito isso.

Mas não fez.

8.8 — A Igreja primitiva procurava Deus

Quando os discípulos precisam de direção, eles oram.

Quando precisam escolher alguém, oram.

Quando enfrentam perseguição, oram.

Quando precisam compreender uma situação, recorrem às Escrituras e à direção do Espírito.

Quando Paulo e Barnabé são separados para a obra, encontramos jejum, oração e a palavra do Espírito.

O padrão é muito diferente da espiritualidade moderna que, em alguns ambientes, transforma experiências sobrenaturais em objetivo.

O Novo Testamento não apresenta o sobrenatural como espetáculo.

Apresenta o sobrenatural como serviço ao propósito de Deus.

Essa diferença é fundamental.

8.9 — “Anjos ministradores”

Agora precisamos voltar a Hebreus 1.

O autor escreve:

“Não são porventura todos eles espíritos ministradores, enviados para servir a favor dos que hão de herdar a salvação?”

Essa talvez seja uma das definições mais importantes sobre a função dos anjos no Novo Testamento.

Eles são:

espíritos ministradores.

E são:

enviados.

A palavra-chave continua aparecendo.

Enviados.

O anjo não é apresentado como um poder espiritual autônomo.

Ele pertence a uma ordem de serviço.

Ele cumpre uma missão.

Ele serve ao propósito de Deus.

Isso nos ajuda a compreender por que o livro de Hebreus coloca Cristo tão acima dos anjos.

8.10 — O Filho está acima dos anjos

Hebreus 1 começa estabelecendo uma hierarquia teológica impressionante.

Deus falou anteriormente de muitas maneiras.

Mas agora falou pelo Filho.

E então o autor começa a demonstrar que o Filho é superior aos anjos.

Ele recebe o nome de Filho.

Os anjos são ordenados a adorá-lo.

Os anjos são chamados de ministros.

O Filho, porém, recebe linguagem de realeza e eternidade.

Isso é fundamental.

Porque qualquer investigação sobre anjos dentro do cristianismo precisa começar por Cristo.

Se retirarmos Cristo do centro, a angelologia rapidamente se transforma em curiosidade espiritual.

E a Bíblia não trata os anjos como o centro da revelação.

Cristo é o centro.

8.11 — O perigo de transformar servos em protagonistas

Existe um princípio que começa a aparecer repetidamente.

Quando Deus envia um mensageiro, o mensageiro aponta para Deus.

Quando Deus envia um anjo, o anjo cumpre sua missão.

Quando Deus usa profetas, os profetas anunciam sua Palavra.

Quando Deus usa apóstolos, os apóstolos anunciam Cristo.

Quando o Espírito Santo age, Ele glorifica Cristo.

Existe uma lógica comum:

o verdadeiro agente de Deus não rouba o centro de Deus.

Por isso, quando uma espiritualidade começa a produzir fascínio excessivo por anjos, nomes de anjos, hierarquias de anjos, invocações de anjos e supostas mensagens angelicais, precisamos parar.

Não necessariamente porque toda experiência seja falsa.

Mas porque precisamos perguntar:

Quem está ocupando o centro?

8.12 — Quando o anjo se torna o centro, alguma coisa mudou

Existe um episódio extremamente revelador no final do Novo Testamento.

João recebe uma revelação extraordinária.

Ele vê coisas que nenhum ser humano comum teria condições de contemplar.

E então João cai aos pés do anjo.

O anjo responde:

“Olha, não faças isso! Sou teu conservo... Adora a Deus.”

Apocalipse 19:10.

Depois algo semelhante acontece novamente em Apocalipse 22.

João tenta adorar o anjo.

E novamente recebe uma correção.

O anjo não aceita a adoração.

Isso é extraordinário.

O anjo não diz:

“Sim, João, continue.”

Não diz:

“Agora você descobriu quem realmente deve receber sua devoção.”

Ele diz:

“Adora a Deus.”

O próprio anjo impede que o mensageiro tome o lugar do Senhor.

8.13 — O anjo não quer o lugar de Deus

Essa passagem nos dá uma espécie de teste espiritual.

Se um ser supostamente angelical aparece em uma experiência e começa a exigir devoção, submissão religiosa, invocação ou dependência pessoal, precisamos comparar essa experiência com o padrão bíblico.

Porque o anjo da revelação não aceita ser adorado.

Ele redireciona João.

“Adora a Deus.”

Isso é coerente com tudo que vimos.

O mensageiro não substitui aquele que o enviou.

8.14 — E aqui surge uma questão ainda mais séria

Se um anjo não deve ocupar o lugar de Deus, também não devemos permitir que a experiência com um anjo ocupe o lugar da Palavra.

Imagine alguém dizendo:

“Eu sei que está certo porque um anjo me falou.”

Essa frase pode parecer espiritualmente impressionante.

Mas biblicamente ela não deveria encerrar a investigação.

Pelo contrário.

Deveria iniciá-la.

Porque o próprio Novo Testamento nos alerta:

“E não é maravilha, porque o próprio Satanás se transfigura em anjo de luz.”

2 Coríntios 11:14.

Paulo está tratando de um contexto específico, e não podemos arrancar esse texto de seu contexto.

Mas existe um princípio extremamente importante:

uma aparência sobrenatural não é, por si só, prova suficiente de que a mensagem vem de Deus.

Isso significa que uma experiência espiritual precisa ser discernida.

8.15 — Nem todo sobrenatural é automaticamente divino

Essa talvez seja uma das frases mais importantes deste capítulo:

Nem tudo aquilo que parece sobrenatural deve ser automaticamente atribuído a Deus.

A Bíblia conhece:

revelação verdadeira;

profecia verdadeira;

anjos verdadeiros;

milagres;

visões;

sonhos;

mas também conhece engano espiritual.

Por isso o Novo Testamento não ensina simplesmente:

“Se você viu um anjo, aceite tudo o que ele disser.”

Pelo contrário.

Paulo apresenta um princípio extremamente forte em Gálatas 1:8:

“Mas, ainda que nós mesmos ou um anjo do céu vos anuncie outro evangelho além do que já vos tenho anunciado, seja anátema.”

Perceba a força disso.

“Ainda que um anjo do céu...”

A aparência angelical não valida automaticamente a mensagem.

A mensagem precisa ser julgada pelo Evangelho.

Isso muda completamente nossa maneira de pensar sobre experiências espirituais.

8.16 — O teste não é “foi um anjo?”

O teste bíblico não começa com:

“Parecia um anjo?”

A pergunta é:

“O que essa mensagem ensina?”

Isso é muito mais profundo.

Porque alguém pode ter uma experiência extraordinária e ainda assim receber uma mensagem incompatível com o Evangelho.

Por isso Paulo coloca o conteúdo acima da aparência.

Mesmo que um anjo anunciasse algo diferente do Evangelho, a mensagem deveria ser rejeitada.

Esse princípio será fundamental quando chegarmos às experiências contemporâneas.

8.17 — O Espírito Santo também aponta para Cristo

E aqui voltamos ao nosso eixo.

Jesus disse:

“Ele me glorificará.”

O anjo em Apocalipse disse:

“Adora a Deus.”

Paulo disse:

“Ainda que um anjo do céu vos anuncie outro evangelho...”

Perceba como todas essas passagens convergem para uma mesma direção.

Cristo não é substituído por experiências espirituais.

A experiência deve ser julgada à luz da verdade.

O anjo não é o centro.

O Espírito Santo não é apresentado como alguém que chama atenção para si mesmo como objeto de culto.

Ele glorifica Cristo.

E Cristo conduz ao Pai.

Existe uma ordem.

8.18 — Então quem intercede?

Agora podemos voltar à pergunta do início.

Quem intercede por nós?

O Novo Testamento apresenta mais de uma dimensão da intercessão.

Romanos 8 fala do Espírito intercedendo pelos santos.

E o mesmo capítulo, alguns versículos depois, apresenta Cristo intercedendo:

“É Cristo Jesus quem morreu... o qual está à direita de Deus e também intercede por nós.”

Isso é extraordinário.

Temos:

Cristo intercede.

O Espírito intercede.

E ainda encontramos no Novo Testamento os anjos como servos enviados.

Mas não encontramos os anjos ocupando o mesmo papel de Cristo e do Espírito na vida espiritual do crente.

Essa distinção precisa ser preservada.

8.19 — Não estamos diminuindo os anjos

Quero deixar isso registrado porque esta investigação pode ser facilmente mal interpretada.

Não estou dizendo que os anjos sejam irrelevantes.

Não estou dizendo que eles não protejam.

Não estou dizendo que não possam aparecer.

Não estou dizendo que não possam transmitir mensagens.

Não estou dizendo que não sirvam aos propósitos de Deus.

A própria Bíblia afirma tudo isso em diferentes contextos.

O que estou perguntando é:

Qual é o lugar deles?

E:

Estamos dando a eles funções que pertencem a outra categoria de atuação divina?

Essa é a pergunta.

8.20 — O verdadeiro problema pode estar na atribuição

Talvez o problema não seja a existência de anjos.

Talvez seja a atribuição.

Quando alguém diz:

“O anjo me protegeu.”

precisamos perguntar o que exatamente está sendo afirmado.

Quando alguém diz:

“O anjo me guiou.”

precisamos perguntar que tipo de orientação ocorreu.

Quando alguém diz:

“O anjo me ensinou uma doutrina.”

a pergunta se torna muito mais séria.

Quando alguém diz:

“O anjo me revelou o futuro.”

a investigação precisa ser ainda mais cuidadosa.

Quando alguém diz:

“O anjo me disse o que Deus quer que eu faça.”

precisamos perguntar:

Como isso se relaciona com a promessa de Cristo de que o Espírito Santo guiaria seus discípulos?

É aqui que nosso livro começa a tocar a prática contemporânea.

8.21 — A pergunta que permanece

Eu poderia terminar este capítulo simplesmente dizendo:

“O Espírito Santo é superior aos anjos.”

Mas isso seria pouco.

Isso já está estabelecido pela própria natureza da questão.

A pergunta que realmente importa é outra:

O que acontece quando a experiência cristã começa a procurar nos anjos aquilo que Cristo prometeu que o Espírito Santo faria?

E talvez a pergunta mais desconfortável seja:

Será que algumas expressões que usamos na nossa espiritualidade atribuem aos anjos funções que o próprio Novo Testamento atribui ao Espírito Santo?

Se a resposta for sim, precisamos identificar exatamente quais são.

Não por tradição.

Não por opinião.

Não por preferência denominacional.

Pelo texto.

E é isso que faremos a partir de agora.

Porque chegamos ao ponto em que precisaremos colocar algumas funções lado a lado:

GUIAR.

ENSINAR.

REVELAR.

FALAR.

ENVIAR.

PROTEGER.

INTERCEDER.

ANUNCIAR.

TESTEMUNHAR.

GLORIFICAR A CRISTO.

Quem exerce cada uma dessas funções?

Quando?

Como?

Com que autoridade?

E, principalmente:

quem o Novo Testamento autoriza o cristão a procurar para cada uma delas?

Agora nossa investigação entra em seu núcleo mais profundo.