CAPÍTULO 9
Quem guia o cristão?
CAPÍTULO 9
QUEM GUIA O CRISTÃO?
Existe uma palavra que usamos com enorme facilidade dentro da vida cristã:
“Deus me guiou.”
Também ouvimos:
“O Espírito Santo me guiou.”
E, em alguns contextos:
“Um anjo me guiou.”
À primeira vista, essas três afirmações podem parecer equivalentes.
Mas são?
Essa é exatamente a pergunta que precisamos fazer.
Porque se existe uma função que Jesus atribuiu explicitamente ao Espírito Santo, essa função é guiar.
Jesus disse:
“Quando vier, porém, o Espírito da verdade, ele vos guiará a toda a verdade.”
João 16:13.
Não estamos diante de uma interpretação posterior.
Não estamos diante de uma tradição.
Não estamos diante de uma conclusão de teólogos.
São palavras do próprio Jesus.
E isso precisa determinar o ponto de partida da nossa investigação.
9.1 — O que significa “guiar”?
No grego de João 16:13 aparece o verbo:
ὁδηγήσει — hodēgēsei.
Ele vem de hodēgéō, verbo relacionado à ideia de conduzir pelo caminho, guiar, dirigir alguém.
A imagem por trás da palavra é muito interessante.
Não é simplesmente:
“informar.”
É:
“conduzir.”
Existe uma diferença enorme entre alguém me entregar um mapa e alguém caminhar comigo indicando o caminho.
O primeiro transmite informação.
O segundo conduz.
Jesus não disse simplesmente:
“O Espírito vos dará informações sobre a verdade.”
Ele disse:
“Ele vos guiará a toda a verdade.”
Isso implica relacionamento, direção e processo.
9.2 — O Espírito não apenas aponta uma direção
Imagine alguém perdido em uma estrada.
Uma pessoa aparece e diz:
“É por ali.”
Ela aponta.
Depois desaparece.
Outra pessoa entra no carro e diz:
“Venha comigo.”
Ela acompanha você.
As duas forneceram alguma forma de orientação.
Mas a natureza da orientação é diferente.
Essa comparação nos ajuda a compreender uma diferença entre muitas aparições angelicais e a promessa de Jesus.
Um anjo pode ser enviado para uma situação específica.
O Espírito Santo é apresentado como aquele que permanece.
Jesus havia acabado de dizer:
“Ele ficará convosco para sempre.”
Portanto, quando Jesus fala do Espírito como aquele que guia, essa direção está inserida em uma relação permanente.
9.3 — Mas existem anjos que conduzem pessoas?
Sim.
E precisamos admitir isso sem medo.
Em Atos 12, o anjo conduz Pedro para fora da prisão.
O anjo diz:
“Levanta-te depressa.”
Depois:
“Cinge-te e calça as tuas sandálias.”
E:
“Lança às costas a tua capa e segue-me.”
O anjo literalmente conduz Pedro.
Então como podemos dizer que somente o Espírito guia?
Não podemos.
E não devemos.
O texto bíblico é mais cuidadoso do que isso.
Anjos podem conduzir alguém em uma missão específica.
Mas isso não é necessariamente equivalente àquilo que Jesus descreveu como a obra contínua do Espírito Santo.
Essa distinção é essencial.
9.4 — Guia circunstancial × guia espiritual permanente
Talvez possamos estabelecer aqui uma primeira distinção.
Um anjo pode receber uma missão para:
conduzir uma pessoa para fora de uma prisão;
levar uma mensagem;
orientar uma ação específica;
proteger alguém em determinada circunstância.
Isso é uma forma de direção.
Mas Jesus fala do Espírito como aquele que:
habita;
ensina;
faz lembrar;
testemunha;
guia à verdade;
glorifica Cristo.
Estamos diante de uma atuação muito mais ampla.
Por isso, não devemos transformar um episódio angelical específico em um modelo geral de espiritualidade cristã.
9.5 — O grande problema da expressão “meu anjo me guia”
Agora chegamos a uma afirmação bastante comum:
“Meu anjo me guia.”
O que essa pessoa pode estar querendo dizer?
Talvez:
“Fui protegido.”
Talvez:
“Uma situação foi providencialmente direcionada.”
Talvez:
“Tive uma experiência sobrenatural.”
Talvez:
“Recebi uma mensagem.”
Essas possibilidades são diferentes.
Mas existe uma quinta possibilidade:
a pessoa acredita que possui um ser angelical pessoal que funciona como seu guia espiritual permanente.
É aqui que precisamos ter cuidado.
A Bíblia realmente fala de anjos ministradores.
Jesus fala de anjos relacionados aos “pequeninos” em Mateus 18:10.
Atos apresenta anjos protegendo e conduzindo.
Mas o Novo Testamento não fornece uma doutrina sistemática dizendo:
“Cada cristão deve buscar conscientemente a orientação de seu anjo pessoal.”
Essa é uma afirmação muito maior do que os textos permitem.
9.6 — Anjo da guarda: o que realmente podemos afirmar?
A ideia de “anjo da guarda” possui uma longa história dentro do cristianismo.
Ela encontra apoio em determinados textos interpretados dessa maneira.
Mas precisamos distinguir entre:
existência de ministério angelical em favor dos seres humanos
e
uma doutrina detalhada de que cada indivíduo possui um anjo pessoal responsável por guiá-lo durante toda a vida.
A primeira ideia possui apoio textual muito mais direto.
A segunda exige inferências.
E inferência não é o mesmo que declaração explícita.
Isso não significa que a ideia de um anjo guardião seja necessariamente falsa.
Significa que devemos apresentá-la com o grau de certeza que o texto permite.
Essa será uma regra permanente neste livro:
onde a Bíblia afirma, afirmaremos.
onde a Bíblia sugere, diremos que sugere.
onde a tradição desenvolveu, identificaremos como tradição.
onde não sabemos, diremos que não sabemos.
9.7 — O Espírito guia para onde?
Essa talvez seja a pergunta mais importante.
Jesus não diz simplesmente:
“O Espírito Santo vos guiará.”
Ele acrescenta:
“à toda a verdade.”
E logo depois explica:
“Ele me glorificará.”
Isso significa que o destino da direção do Espírito é inseparável de Cristo.
O Espírito não guia simplesmente para experiências.
Não guia para fascínio espiritual.
Não guia para dependência de mensageiros celestiais.
Ele guia para a verdade e glorifica Cristo.
Isso cria um critério extremamente importante.
Quando alguém afirma:
“Fui guiado espiritualmente”
devemos perguntar:
Guiado para quê?
A direção produziu fidelidade a Cristo?
Conformidade com o Evangelho?
Santidade?
Amor?
Verdade?
Ou produziu dependência de uma experiência sobrenatural?
A origem alegada de uma experiência não é suficiente.
Precisamos examinar seu fruto e seu conteúdo.
9.8 — O Espírito guia sem necessariamente produzir uma aparição
Existe outro detalhe muito importante.
No livro de Atos, muitas vezes Lucas diz que o Espírito dirigiu os discípulos sem descrever qualquer manifestação visível.
Atos 16 é um exemplo.
Paulo e seus companheiros tentam seguir determinadas rotas.
O Espírito impede.
Depois eles recebem a visão do homem macedônio.
Observe a diferença.
O texto distingue entre:
direção do Espírito
e
visão recebida por Paulo.
Não devemos misturar tudo como se qualquer experiência espiritual fosse automaticamente uma aparição.
O Novo Testamento apresenta diferentes meios pelos quais Deus conduz seu povo.
Isso é extremamente importante para nossa investigação.
9.9 — O cristão precisa de um anjo para saber a vontade de Deus?
Aqui eu quero fazer uma pergunta que talvez incomode alguns leitores:
Se Cristo prometeu o Espírito Santo para guiar seus discípulos, por que eu deveria procurar um anjo para descobrir a vontade de Deus?
Talvez alguém responda:
“Porque Deus pode usar anjos.”
Sim.
Pode.
Mas essa resposta não resolve a questão.
A pergunta não é:
“Deus pode?”
A pergunta é:
“O que Deus nos ensinou a buscar como padrão de direção espiritual?”
E quando olhamos para o Novo Testamento, encontramos:
Espírito Santo.
Escrituras.
oração.
sabedoria.
discernimento.
comunidade cristã.
conselho.
frutos.
E, em situações extraordinárias, Deus pode utilizar outros meios.
Mas o extraordinário não deve substituir aquilo que Cristo estabeleceu como normal.
9.10 — A direção do Espírito não é independente da Palavra
Existe um perigo enorme quando alguém diz:
“O Espírito me guiou.”
Essa frase pode ser verdadeira.
Mas ela também pode ser usada para encerrar qualquer questionamento.
Se eu digo:
“Foi o Espírito que mandou.”
quem pode me questionar?
É exatamente por isso que o Novo Testamento nos ensina a discernir.
O Espírito Santo não contradiz a verdade que Ele mesmo inspirou.
Se uma suposta direção espiritual contradiz claramente as Escrituras, não devemos aceitá-la simplesmente porque a pessoa sentiu algo muito forte.
Isso vale para qualquer experiência.
Inclusive experiências angelicais.
9.11 — O problema do sentimento
Existe uma tendência moderna de confundir:
“eu senti”
com:
“Deus falou.”
São coisas diferentes.
Uma pessoa pode sentir paz.
Pode sentir medo.
Pode sentir uma forte convicção.
Pode experimentar uma emoção intensa.
Nada disso, isoladamente, prova a origem sobrenatural da experiência.
Da mesma maneira:
ver uma luz não prova que foi um anjo.
ouvir uma voz não prova que foi Deus.
ter um sonho não prova que foi uma revelação.
sentir uma direção não prova automaticamente que foi o Espírito Santo.
A experiência precisa ser discernida.
9.12 — O Novo Testamento manda provar os espíritos
João escreve:
“Amados, não creiais a todo espírito, mas provai se os espíritos são de Deus.”
1 João 4:1.
Essa frase deveria estar presente em qualquer discussão séria sobre experiências espirituais.
João não diz:
“Aceitem qualquer experiência espiritual.”
Ele diz:
“Provai.”
Existe discernimento.
Existe avaliação.
Existe teste.
Portanto, uma pessoa que afirma:
“Um ser espiritual falou comigo”
não deveria esperar que a Igreja simplesmente respondesse:
“Então veio de Deus.”
A resposta bíblica é:
“Vamos examinar.”
9.13 — O anjo pode guiar; o Espírito conduz à verdade
Talvez possamos resumir nossa investigação desta maneira:
Um anjo pode receber uma missão específica de Deus e, nessa missão, conduzir uma pessoa.
Mas Jesus apresenta o Espírito Santo como aquele que conduz os discípulos à verdade.
Não apenas a um destino geográfico.
Não apenas para fora de uma prisão.
Não apenas para uma ação circunstancial.
Mas à verdade.
Essa palavra muda tudo.
Porque o Espírito não é simplesmente um GPS espiritual.
Ele é apresentado como aquele que conduz a comunidade de Cristo na verdade.
9.14 — O Espírito também conduz a missão
Atos 13 nos mostrou:
“Disse o Espírito Santo: Apartai-me Barnabé e Saulo...”
Aqui a direção não é individualista.
O Espírito conduz a missão da Igreja.
Isso também é importante.
A direção espiritual do Novo Testamento não é apresentada apenas como:
“O que Deus quer que eu faça hoje?”
Ela também envolve:
“O que Deus está fazendo por meio do seu povo?”
O Espírito conduz a comunidade.
Isso reduz a possibilidade de transformar toda experiência pessoal em revelação universal.
9.15 — Quando alguém diz: “Meu anjo me mandou fazer isso”
Agora temos condições de avaliar essa frase.
Não devemos simplesmente ridicularizar.
Também não devemos aceitar automaticamente.
Devemos perguntar:
O que exatamente aconteceu?
Houve uma aparição?
Foi um sonho?
Foi uma impressão interior?
Houve uma voz?
Qual foi o conteúdo?
Contradiz as Escrituras?
Aponta para Cristo?
Produz fruto compatível com o Evangelho?
Existe alguma razão bíblica para atribuir isso a um anjo?
E talvez a pergunta mais importante:
Por que a pessoa atribuiu a experiência a um anjo e não ao Espírito Santo?
Essa última pergunta pode revelar algo profundo sobre nossa própria linguagem espiritual.
9.16 — Nossa linguagem pode revelar nossa teologia
Talvez este seja um dos pontos mais importantes de todo este capítulo.
As palavras que usamos revelam aquilo que acreditamos.
Quando alguém diz:
“Meu anjo me protege.”
está afirmando uma determinada compreensão da atuação angelical.
Quando diz:
“O Espírito Santo me conduziu.”
está afirmando outra.
Quando diz:
“Deus colocou isso no meu coração.”
está utilizando outra forma de linguagem.
Essas frases não devem ser tratadas como simples sinônimos.
Elas carregam pressupostos teológicos.
E este livro pretende justamente investigar esses pressupostos.
9.17 — Existe uma pergunta que precisamos aprender a fazer
Talvez, depois de tudo o que estamos estudando, uma pergunta deva fazer parte da nossa maturidade espiritual:
“Por que estou atribuindo isso a um anjo?”
Não:
“Será que foi um anjo?”
Mas:
“Por que concluí que foi um anjo?”
Qual foi a evidência?
A Bíblia descreve algo semelhante?
Existe uma tradição que me ensinou a interpretar experiências dessa maneira?
Alguém me disse que determinadas sensações são manifestações angelicais?
Ou estou simplesmente utilizando uma linguagem que aprendi dentro de determinado ambiente religioso?
Essa investigação é necessária porque nossa interpretação de uma experiência pode ser influenciada pela cultura.
9.18 — O risco da cultura cristã
Durante séculos, pinturas, livros, músicas, sermões, filmes e tradições construíram uma imagem popular dos anjos.
Anjos com asas.
Anjos protetores.
Anjos pessoais.
Anjos que acompanham crianças.
Anjos que aparecem em sonhos.
Anjos que carregam mensagens pessoais.
Algumas dessas imagens podem possuir raízes bíblicas parciais.
Outras vêm de tradições posteriores.
Outras são simplesmente construções culturais.
O problema começa quando a cultura se torna tão forte que já não conseguimos distinguir:
“isso está na Bíblia”
de:
“eu sempre ouvi isso.”
Por isso precisamos voltar ao texto.
9.19 — O Espírito não precisa disputar espaço com os anjos
Existe uma conclusão importante que começa a se formar.
Não precisamos criar uma guerra entre anjos e Espírito Santo.
A Bíblia não faz isso.
Os anjos servem.
O Espírito Santo habita e conduz.
Os anjos são enviados.
O Espírito envia.
Os anjos podem transmitir mensagens.
O Espírito ensina e guia.
Os anjos ministram.
O Espírito intercede.
Os anjos apontam para Deus.
O Espírito glorifica Cristo.
Existe espaço para cada função.
O problema começa quando misturamos as funções.
9.20 — A pergunta permanece aberta
Neste capítulo, eu ainda não quero encerrar tudo.
Porque ainda precisamos investigar outras funções.
Ensinar.
Revelar.
Falar.
Enviar.
Proteger.
Anunciar.
E existe uma especialmente delicada:
dar a conhecer o futuro.
Porque Gabriel aparece justamente em textos relacionados a acontecimentos futuros.
E isso nos leva a uma pergunta que pode mudar completamente nossa compreensão:
Um anjo pode revelar o futuro?
Se pode, em que sentido?
O anjo conhece o futuro por si mesmo?
Ou transmite aquilo que Deus determinou?
E quando alguém hoje afirma:
“Um anjo me revelou o que vai acontecer”
isso possui alguma base bíblica?
Ou estamos diante de uma apropriação moderna de um fenômeno bíblico extraordinário?
Essa será nossa próxima investigação.
Porque, quando entrarmos em revelação e conhecimento do futuro, vamos tocar diretamente em profecia, sonhos, Daniel, Apocalipse, Gabriel e, posteriormente, nas tradições judaicas sobre anjos.
E aqui, Bruno, o nosso livro vai começar a ficar realmente perigoso para as nossas próprias certezas.
E é exatamente aí que uma investigação séria deve chegar.
9.5 — GUIAR NÃO É O MESMO QUE INFLUENCIAR
Antes de continuarmos, preciso estabelecer uma distinção que considero fundamental para esta investigação:
ser influenciado não é necessariamente o mesmo que ser guiado.
Na linguagem cotidiana, costumamos misturar essas duas ideias.
Uma pessoa pode dizer:
“Aquilo me guiou.”
quando, na realidade, aquilo apenas exerceu alguma influência sobre sua decisão.
Mas, para uma investigação sobre a atuação do Espírito Santo e dos anjos, essa diferença precisa ser muito mais precisa.
Influência
Influenciar significa, em termos gerais, afetar uma decisão, comportamento, percepção ou reação.
Uma conversa pode me influenciar.
Uma experiência pode me influenciar.
Uma pessoa pode me influenciar.
Uma circunstância pode me influenciar.
Até mesmo aquilo que vejo ou ouço pode influenciar uma decisão.
Mas influência não significa necessariamente que alguém tenha me dado uma direção consciente, verbal ou sobrenatural.
Por exemplo:
Eu encontro uma pessoa necessitada.
Aquilo toca meu coração.
Eu decido ajudá-la.
Posso dizer que aquela situação influenciou minha decisão.
Mas isso não significa necessariamente que Deus tenha me dado uma revelação específica dizendo:
“Vá até aquela pessoa e faça isso.”
Existe uma diferença.
9.6 — Guiar envolve direção
Quando Jesus diz:
“Ele vos guiará a toda a verdade.”
a linguagem é mais forte.
O Espírito não é apresentado simplesmente como uma influência entre muitas outras.
Ele é apresentado como aquele que conduz.
Existe uma direção.
Existe um caminho.
Existe um destino.
A imagem é muito diferente de simplesmente produzir uma sensação ou afetar uma decisão.
Por isso, quando alguém afirma:
“O Espírito Santo me guiou.”
precisamos perguntar:
O que essa pessoa quer dizer com “guiou”?
Ela recebeu uma direção específica?
Teve uma convicção?
Compreendeu algo nas Escrituras?
Foi conduzida por circunstâncias?
Recebeu uma profecia?
Teve uma visão?
Ou simplesmente sentiu que determinada decisão parecia correta?
Todas essas coisas podem fazer parte de uma experiência espiritual, mas não são necessariamente a mesma coisa.
9.7 — Influência não significa necessariamente comunicação
Essa distinção também é fundamental quando falamos de anjos.
Imagine que uma pessoa esteja prestes a sofrer um acidente e, por alguma circunstância inesperada, mude de caminho.
Mais tarde ela descobre que naquele caminho aconteceu um acidente grave.
Ela poderia interpretar:
“Deus me protegeu.”
E um cristão poderia compreender essa experiência como providência divina.
Mas seria muito mais difícil afirmar, somente com esses fatos:
“Um anjo apareceu e me guiou para outro caminho.”
Por quê?
Porque não houve necessariamente uma comunicação identificável.
Houve uma circunstância.
Talvez uma providência.
Talvez uma influência.
Talvez uma direção de Deus.
Mas não temos elementos suficientes para identificar o agente.
Isso é importante porque nossa tendência humana é preencher o desconhecido com uma explicação.
E, muitas vezes, damos um nome ao que não conseguimos explicar.
9.8 — O perigo de transformar toda providência em manifestação angelical
Existe uma expressão muito utilizada:
“Foi meu anjo.”
Talvez tenha sido.
Mas talvez não saibamos.
E essa diferença entre:
“foi”
e
“pode ter sido”
é uma diferença enorme quando estamos fazendo teologia.
A Bíblia nos permite afirmar que Deus utiliza seus anjos.
Ela também nos permite afirmar que Deus age providencialmente.
Ela nos permite afirmar que o Espírito Santo guia seus filhos.
Mas isso não significa que possamos identificar o agente de cada acontecimento extraordinário.
Nem toda porta que se abre foi necessariamente um anjo.
Nem toda porta que se fecha foi necessariamente um anjo.
Nem toda coincidência é uma mensagem angelical.
Nem toda sensação é uma revelação.
Nem toda mudança de rota é uma direção sobrenatural específica.
Precisamos aprender a dizer:
“Não sabemos.”
Isso não enfraquece a fé.
Isso fortalece a honestidade da investigação.
9.9 — Guia também não é o mesmo que sensação
Existe outro problema.
Às vezes alguém diz:
“Eu senti que deveria fazer isso, então o Espírito Santo me guiou.”
Talvez tenha sido.
Mas o sentimento, por si só, não prova a origem.
O coração humano é complexo.
Desejos, medos, experiências anteriores, personalidade, expectativas, traumas, conselhos, circunstâncias e interesses pessoais podem influenciar uma decisão.
Portanto:
sentir não é automaticamente ser guiado pelo Espírito.
A experiência precisa ser discernida.
Da mesma maneira:
sentir uma presença não significa automaticamente que um anjo esteja presente.
sentir paz não prova automaticamente uma manifestação angelical.
sentir medo não prova automaticamente uma batalha espiritual.
A experiência pode ser real.
A interpretação da experiência pode estar errada.
Essa distinção será fundamental nos próximos capítulos.
9.10 — Guia, influência e mensagem
Talvez possamos organizar essas três ideias desta maneira:
INFLUÊNCIA
Algo afeta minha decisão ou percepção.
“Isso me influenciou.”
Não necessariamente houve comunicação.
MENSAGEM
Alguém comunica uma informação ou uma ordem.
“Foi-me dito que...”
Aqui existe comunicação.
GUIA
Existe condução em determinada direção.
“Fui conduzido a...”
Aqui existe direção.
Essas três categorias podem se relacionar.
Uma mensagem pode produzir direção.
Uma circunstância pode influenciar uma decisão.
Uma direção pode resultar de uma série de influências.
Mas elas não devem ser tratadas como sinônimos.
9.11 — E onde entra o Espírito Santo?
É aqui que nossa investigação fica ainda mais interessante.
O Novo Testamento apresenta o Espírito Santo realizando mais do que uma simples influência.
Jesus afirma:
“Ele vos ensinará todas as coisas.”
“Ele vos fará lembrar de tudo quanto vos tenho dito.”
“Ele vos guiará a toda a verdade.”
“Ele vos anunciará o que há de vir.”
E em Atos encontramos:
“Disse o Espírito Santo...”
“foram impedidos pelo Espírito Santo...”
“o Espírito de Jesus não lho permitiu.”
Portanto, o Novo Testamento atribui ao Espírito comunicação, ensino e direção.
Não devemos reduzir isso a uma simples sensação interior.
Ao mesmo tempo, não devemos transformar toda impressão subjetiva em uma declaração infalível:
“O Espírito Santo falou comigo.”
Existe uma distância entre essas duas coisas.
9.12 — E onde entram os anjos?
Os anjos também podem comunicar.
Também podem conduzir em uma missão específica.
Também podem ser enviados para servir.
Mas isso não significa que o Novo Testamento apresente os anjos como a fonte habitual da direção espiritual permanente dos cristãos.
Essa é uma distinção que precisamos preservar.
Um anjo pode dizer:
“Levanta-te e vai.”
Isso aconteceu com Pedro.
Mas disso não podemos concluir:
“Todo cristão deve procurar um anjo para receber orientação.”
O episódio prova a atuação angelical naquele episódio.
Não estabelece automaticamente uma prática espiritual universal.
9.13 — O perigo da generalização
Esse talvez seja um dos erros mais comuns quando lemos narrativas bíblicas.
Acontece na Bíblia:
logo, deve acontecer normalmente comigo.
Mas a Bíblia contém acontecimentos extraordinários que não são apresentados como padrões universais.
Pedro foi libertado milagrosamente da prisão.
Isso não significa que todos os cristãos presos serão libertados por anjos.
Paulo recebeu uma mensagem angelical no mar.
Isso não significa que todo cristão em uma tempestade receberá uma visita angelical.
Gabriel apareceu a Daniel.
Isso não significa que todo estudante da profecia receberá Gabriel.
Precisamos distinguir:
relato bíblico
de:
modelo normativo.
Essa distinção será indispensável em nossa investigação.
9.14 — Talvez a pergunta correta seja outra
Em vez de perguntar:
“Deus pode usar um anjo para me guiar?”
a resposta bíblica provavelmente precisa ser:
“Sim, Deus pode utilizar seus servos como quiser.”
Mas essa não é a pergunta principal deste livro.
A pergunta principal é:
“Qual é o padrão de orientação que Cristo prometeu à sua Igreja?”
E aqui o Novo Testamento nos leva novamente ao Espírito Santo.
Ele habita.
Ele ensina.
Ele guia.
Ele testemunha.
Ele intercede.
Ele glorifica Cristo.
Portanto, quando encontramos uma experiência que parece envolver orientação sobrenatural, não devemos automaticamente atribuí-la a um anjo.
Precisamos primeiro perguntar:
O que o Novo Testamento nos ensinou sobre a direção do Espírito?
9.15 — Uma última distinção
Existe ainda uma diferença entre:
“Deus me influenciou”
e:
“Deus me guiou.”
Na primeira frase, estou descrevendo um efeito.
Na segunda, estou afirmando uma condução.
E existe uma diferença ainda maior entre:
“Deus me guiou.”
e:
“O anjo Gabriel me disse para fazer isso.”
A última afirmação é muito mais específica.
Ela identifica:
um agente;
uma comunicação;
uma origem;
uma mensagem;
e uma autoridade.
Por isso, quanto mais específica for a afirmação espiritual, maior deve ser o nosso cuidado.
Não devemos atribuir a um anjo aquilo que simplesmente não temos como identificar.
Não devemos atribuir ao Espírito aquilo que pode ser apenas uma preferência pessoal.
E não devemos atribuir diretamente a Deus aquilo que é apenas uma interpretação nossa das circunstâncias.
A maturidade espiritual também consiste em saber dizer:
“Eu creio que Deus me conduziu.”
sem necessariamente afirmar:
“Um anjo falou comigo.”
E também:
“Entendi isso à luz das Escrituras e, em oração, fui conduzido a essa decisão.”
sem transformar uma convicção pessoal em uma revelação infalível.
9.16 — A linguagem da certeza precisa acompanhar a evidência
Essa talvez seja uma das regras mais importantes deste livro:
quanto maior a afirmação, maior deve ser a evidência.
Dizer:
“Isso me influenciou.”
é uma afirmação relativamente simples.
Dizer:
“Creio que Deus me conduziu.”
é uma afirmação espiritual mais forte.
Dizer:
“O Espírito Santo me mostrou.”
é ainda mais específico.
Dizer:
“Um anjo me apareceu e me deu uma ordem.”
é uma afirmação extraordinária.
Portanto, não devemos tratar todas essas frases como se tivessem o mesmo peso.
Uma experiência pode ser verdadeira sem que nossa interpretação dela seja necessariamente correta.
E essa distinção será uma das ferramentas mais importantes para o restante desta investigação.
Porque nosso objetivo não é destruir experiências espirituais.
É aprender a discerni-las.
E talvez seja justamente aqui que a diferença entre guia e influência nos ajude a fazer algo que parece simples, mas é extremamente difícil:
não dizer mais do que realmente sabemos.