PREFÁCIO
Antes de falar sobre anjos, preciso falar sobre autoridade
PREFÁCIO
Antes de falar sobre anjos, preciso falar sobre autoridade
Antes de começar a estudar os anjos, precisei tomar uma decisão.
Eu não poderia transformar este livro em um catálogo de seres celestiais.
Não quero simplesmente descobrir quantos anjos existem, quais são seus nomes, como seriam suas asas ou qual posição ocupariam em uma suposta hierarquia celestial.
Essas questões possuem seu lugar e serão investigadas.
Mas existe uma questão anterior a todas elas.
Autoridade.
Quem envia?
Quem fala?
Quem revela?
Quem guia?
Quem ensina?
Quem intercede?
Quem executa?
Quem recebe a mensagem?
E, finalmente:
quem possui a autoridade daquilo que foi comunicado?
Essa diferença pode parecer pequena, mas ela muda completamente nossa maneira de compreender os relatos bíblicos sobre anjos.
A palavra “mensageiro” não significa necessariamente “autor da mensagem”.
Um mensageiro é, por definição, alguém que foi enviado.
Essa ideia aparece de maneira muito importante quando observamos o vocabulário bíblico. O hebraico mal'akh pode significar “mensageiro”, e o grego ángelos também possui esse sentido. Em determinados contextos, essas palavras podem até se referir a mensageiros humanos. O contexto é que determina se estamos diante de um mensageiro humano ou de um ser celestial.
Isso já me obriga a abandonar uma imagem simplista.
“Anjo” não é, originalmente, uma palavra que funcione como nome próprio de uma espécie celestial independente de contexto.
É uma palavra relacionada à função de mensageiro.
E se isso é verdade, preciso perguntar:
mensageiro de quem?
Essa pergunta nos leva ao centro da investigação.
O autor de Hebreus descreve os anjos como “espíritos ministradores”, enviados para serviço em favor daqueles que haverão de herdar a salvação. O próprio texto coloca a ênfase no fato de que eles são enviados.
Portanto, antes de atribuir autonomia aos anjos, preciso observar cuidadosamente a linguagem bíblica.
Eles são enviados.
Eles servem.
Eles ministram.
Eles obedecem.
Eles executam.
Mas de onde vem a ordem?
Essa será uma das perguntas mais importantes deste livro.
Ao mesmo tempo, quando passo para os ensinamentos de Jesus sobre o Espírito Santo, encontro uma linguagem diferente.
O Espírito Santo não aparece simplesmente como mais um mensageiro celestial.
Jesus apresenta o Espírito como aquele que ensinaria seus discípulos, os faria lembrar aquilo que Ele havia ensinado e os guiaria na verdade.
Aqui está uma diferença que não posso ignorar.
Talvez este livro não seja, em sua essência, apenas uma investigação sobre anjos.
Talvez ele seja uma investigação sobre quem fala em nome de Deus.
E isso é muito mais sério.
Porque quando alguém diz:
“Um anjo me falou...”
não está apenas contando uma experiência.
Dependendo da maneira como essa frase é utilizada, está fazendo uma afirmação sobre a origem de uma orientação espiritual.
E se essa orientação é apresentada como vontade de Deus, então a questão deixa de ser simplesmente angelológica.
Ela se torna uma questão de autoridade, revelação e discernimento.
É por isso que não quero começar este livro dizendo que determinada experiência é falsa.
Também não quero começar dizendo que determinada experiência é verdadeira.
Quero perguntar:
O que a Bíblia permite afirmar?
Essa será nossa régua.
Quando encontrarmos um texto bíblico claro, iremos tratá-lo como texto bíblico.
Quando encontrarmos uma interpretação tradicional, iremos identificá-la como tradição.
Quando encontrarmos material de literatura judaica antiga, iremos estudá-lo dentro de seu contexto histórico, sem automaticamente transformá-lo em Escritura.
E quando encontrarmos uma afirmação moderna que não encontra apoio suficiente nas fontes antigas, teremos coragem de dizer:
não sabemos.
Essa talvez seja uma das palavras mais importantes de uma investigação séria.
Não sabemos.
Porque reconhecer os limites do conhecimento não enfraquece a fé.
Ao contrário.
Pode impedir que transformemos nossa imaginação em doutrina.
É com essa postura que começo esta jornada.
Não quero diminuir os anjos.
Quero compreendê-los.
Não quero diminuir o Espírito Santo.
Quero compreender aquilo que Jesus realmente prometeu sobre sua atuação.
Não quero colocar criaturas celestiais em competição com Deus.
Quero entender a ordem apresentada pelo próprio texto bíblico.
E, acima de tudo, quero descobrir se nós, cristãos do nosso tempo, acabamos atribuindo aos anjos funções que as Escrituras apresentam de maneira muito mais direta como obra do Espírito Santo.
A pergunta continua aberta.
E é justamente por isso que podemos começar.