INTRODUÇÃO
A pergunta que me fez começar esta investigação
INTRODUÇÃO
A pergunta que me fez começar esta investigação
Há perguntas que surgem de uma curiosidade passageira.
E há perguntas que, depois de formuladas, não nos deixam mais em paz.
Este livro nasceu de uma dessas perguntas.
Durante muito tempo, ouvi expressões como: “Foi o anjo que me falou”, “O anjo me revelou”, “Gabriel me disse”, “Meu anjo me mostrou o que eu deveria fazer”. Algumas dessas afirmações eram apresentadas com tanta convicção que pareciam não admitir questionamento.
Mas uma pergunta começou a surgir dentro de mim:
Será que estamos atribuindo aos anjos funções que o Novo Testamento atribui ao Espírito Santo?
Não comecei esta investigação porque deixei de acreditar em anjos.
Muito pelo contrário.
Se vou investigar os anjos, preciso primeiro reconhecer aquilo que os próprios textos bíblicos dizem sobre eles. A Bíblia apresenta anjos como realidade espiritual, mensageiros de Deus e seres envolvidos em diferentes acontecimentos da história bíblica.
Mas justamente por acreditar na autoridade das Escrituras, não posso simplesmente aceitar toda afirmação sobre anjos porque ela parece espiritual, bonita ou tradicional.
Preciso perguntar.
Quem são os anjos?
De onde vem a palavra “anjo”?
O que significa mal'akh no hebraico?
O que significa ángelos no grego?
Quando a Bíblia chama alguém de “anjo”, está necessariamente falando de um ser celestial?
Gabriel é um anjo? É um arcanjo? O texto bíblico realmente o chama assim?
Quem é Miguel?
O que são querubins?
O que são serafins?
Existe uma hierarquia celestial apresentada nas Escrituras?
E, principalmente:
Qual é a função dos anjos?
Porque talvez seja justamente aqui que nossa investigação se torne mais delicada.
A Bíblia apresenta anjos como mensageiros. Eles aparecem, falam, conduzem, protegem, executam ordens e participam de acontecimentos extraordinários. Portanto, não seria correto simplesmente afirmar que anjos jamais comunicam mensagens aos seres humanos.
O próprio Novo Testamento apresenta episódios de comunicação angelical depois da inauguração da Igreja.
Isso significa que minha investigação não poderá partir de uma conclusão previamente escolhida.
Precisarei permitir que o texto bíblico me corrija quando necessário.
E essa é uma das regras que estabeleci para este livro:
eu não quero fazer a Bíblia dizer aquilo que eu gostaria que ela dissesse. Quero descobrir o que ela realmente diz.
Ao mesmo tempo, existe uma outra realidade que não posso ignorar.
Jesus prometeu aos seus discípulos que o Pai enviaria “outro Consolador”. O Espírito Santo ensinaria, lembraria as palavras de Cristo, guiaria os discípulos na verdade e glorificaria o próprio Cristo.
Isso muda profundamente a pergunta.
Se existe uma promessa tão clara sobre a atuação do Espírito Santo na vida daqueles que seguem Cristo, precisamos investigar cuidadosamente quais funções pertencem a Ele e quais pertencem aos anjos.
Não estou perguntando se anjos existem.
Estou perguntando qual é o lugar deles.
Não estou perguntando se anjos podem ser enviados por Deus.
Estou perguntando quem possui a autoridade da mensagem.
Não estou tentando colocar anjos contra o Espírito Santo como se fossem forças concorrentes.
Estou tentando compreender a ordem apresentada pelas Escrituras.
Talvez uma das maiores confusões esteja justamente em não diferenciarmos o mensageiro daquele que envia a mensagem.
Um mensageiro pode falar em nome de um rei sem possuir a autoridade do rei.
Um mensageiro pode carregar uma ordem sem ser a origem da ordem.
Um mensageiro pode aparecer diante de alguém sem se tornar, por isso, a fonte independente da revelação.
Essa distinção será fundamental ao longo destas páginas.
Também precisarei investigar aquilo que aconteceu depois de Cristo.
O Pentecostes mudou alguma coisa na maneira como Deus se relaciona com seu povo?
O derramamento do Espírito Santo alterou o papel dos anjos?
O Espírito Santo assumiu uma função que anteriormente aparecia associada a manifestações angelicais?
Ou estamos diante de funções diferentes que não deveriam ser confundidas?
E existe ainda uma pergunta mais profunda:
Quando alguém afirma “um anjo me disse”, o que exatamente essa pessoa está afirmando?
Ela está dizendo que recebeu uma mensagem de Deus através de um mensageiro?
Está relatando uma experiência espiritual?
Está interpretando uma visão?
Está reproduzindo uma tradição?
Ou está atribuindo a um anjo uma função que o Novo Testamento apresenta como própria do Espírito Santo?
Não quero responder essas perguntas com opiniões pessoais.
Quero investigar.
Para isso, percorrerei o vocabulário hebraico e grego, o contexto do antigo Israel, o judaísmo do Segundo Templo, textos antigos, literatura relacionada à angelologia, o desenvolvimento das tradições judaicas e cristãs e, principalmente, o testemunho das Escrituras.
Também precisarei estabelecer limites.
Nem tudo o que aparece em tradições antigas possui a mesma autoridade do texto bíblico.
Nem todo nome de anjo encontrado em literatura posterior pertence à Bíblia.
Nem toda classificação angelical popular pode ser apresentada como doutrina bíblica.
Nem toda experiência espiritual deve ser transformada automaticamente em revelação divina.
E nem toda afirmação feita em nome de Deus deve ser aceita sem discernimento.
Por isso, este livro não pretende ridicularizar experiências espirituais.
Também não pretende alimentar fantasias sobre o mundo angelical.
Meu objetivo é mais simples e, ao mesmo tempo, mais difícil:
colocar cada coisa em seu devido lugar.
Anjos são anjos.
O Espírito Santo é o Espírito Santo.
Cristo é Cristo.
E Deus continua sendo Deus.
Se em algum momento desta investigação eu descobrir que uma ideia que eu mesmo possuía não encontra sustentação suficiente nas Escrituras, ela precisará ser revista.
Porque, no fim, esta obra não será uma defesa daquilo que eu pensei inicialmente.
Será uma investigação.
E talvez seja justamente por isso que ela precise começar com uma pergunta, e não com uma resposta.
Estamos atribuindo aos anjos funções que o Novo Testamento atribui ao Espírito Santo?