CAPÍTULO 6
Outro Consolador: a promessa que mudou a relação entre Deus e seus discípulos
CAPÍTULO 6
OUTRO CONSOLADOR: A PROMESSA QUE MUDOU A RELAÇÃO ENTRE DEUS E SEUS DISCÍPULOS
Depois de investigarmos Gabriel, uma coisa ficou clara para mim: não posso compreender corretamente a função dos anjos sem primeiro compreender aquilo que Jesus prometeu aos seus discípulos.
Essa ordem é importante.
Se eu começo estudando os anjos e, depois, tento encaixar o Espírito Santo dentro daquilo que descobri sobre eles, corro o risco de inverter a própria lógica do Novo Testamento.
Por isso, agora preciso fazer o caminho inverso.
Preciso começar pelas palavras de Jesus.
E existe uma passagem que, para esta investigação, talvez seja uma das mais importantes de todo o Novo Testamento.
Jesus está com seus discípulos.
A cruz se aproxima.
Ele sabe que sua partida está próxima.
Os discípulos estão perturbados.
E então Jesus faz uma promessa:
“E eu rogarei ao Pai, e ele vos dará outro Consolador, para que fique convosco para sempre.”
Essa frase está em João 14:16.
E há uma palavra aqui que não podemos simplesmente passar por cima:
“outro”.
6.1 — “Outro Consolador”
No grego, Jesus utiliza a expressão:
ἄλλον παράκλητον — állon parákleton.
A palavra állon significa “outro”, mas não simplesmente outro de qualquer espécie.
Ela pode carregar a ideia de outro da mesma espécie ou natureza correspondente, em contraste com héteros, que pode indicar outro de natureza diferente.
Não devemos transformar uma nuance lexical em uma doutrina isolada.
Mas existe algo evidente no contexto.
Jesus está falando de alguém que continuará junto aos discípulos uma obra que até então estava sendo exercida de maneira extraordinária pela própria presença de Cristo.
Por isso a expressão:
“outro Consolador.”
Jesus não está prometendo um anjo.
Não está dizendo:
“Mandarei um mensageiro celestial para substituir minha presença.”
Ele está falando do Espírito Santo.
E isso muda completamente nossa investigação.
6.2 — O primeiro Consolador
Aqui precisamos fazer uma distinção muito importante.
Quando Jesus promete “outro Consolador”, existe uma relação entre sua própria presença e a presença daquele que virá.
Cristo esteve com os discípulos.
Cristo ensinou os discípulos.
Cristo corrigiu os discípulos.
Cristo revelou o Pai aos discípulos.
Cristo explicou as Escrituras.
Cristo respondeu às perguntas.
Cristo discerniu os corações.
Cristo conduziu os discípulos.
Cristo preparou os discípulos para sua missão.
Agora ele está anunciando que sua partida não significará abandono.
A presença de Deus continuará com eles.
Mas de uma maneira diferente.
Jesus diz:
“Não vos deixarei órfãos; voltarei para vós.”
E logo depois fala do Espírito Santo.
Portanto, o que aparece aqui não é simplesmente a substituição de uma pessoa por outra.
É uma mudança profunda na maneira como a presença divina será experimentada pelos discípulos.
Cristo esteve com eles.
O Espírito Santo estará neles.
Jesus declara:
“Vós o conheceis, porque habita convosco e estará em vós.”
Essa frase é extraordinária.
6.3 — A diferença entre visita e habitação
Quando estudamos os relatos bíblicos de aparições angelicais, normalmente encontramos um padrão.
O anjo aparece.
O anjo entrega uma mensagem.
O anjo cumpre uma missão.
E o anjo parte.
Isso acontece repetidamente.
Em Daniel, Gabriel aparece e comunica.
Em Lucas, Gabriel aparece e anuncia.
Em Atos 12, um anjo aparece a Pedro e o conduz para fora da prisão.
Em Atos 27, um anjo aparece a Paulo e transmite uma mensagem de encorajamento.
Existe movimento.
Aparecer.
Falar.
Cumprir.
Partir.
Mas Jesus utiliza outra linguagem para o Espírito Santo:
“fique convosco para sempre.”
“habita convosco.”
“estará em vós.”
Aqui encontramos uma diferença que não pode ser ignorada.
Não estou dizendo que essa diferença significa que anjos nunca permanecem próximos ou nunca protegem alguém.
A Bíblia utiliza outras linguagens sobre o ministério angelical.
Estou dizendo algo mais específico:
Jesus descreve a relação dos discípulos com o Espírito Santo em termos de presença permanente e interior.
Essa característica é central para nossa investigação.
6.4 — O Espírito não aparece apenas para entregar uma mensagem
Agora chegamos a uma diferença ainda maior.
Jesus continua falando sobre o Espírito Santo:
“Mas aquele Consolador, o Espírito Santo, que o Pai enviará em meu nome, esse vos ensinará todas as coisas e vos fará lembrar de tudo quanto vos tenho dito.”
João 14:26.
Observe os verbos.
Ensinará.
Fará lembrar.
Jesus não descreve o Espírito Santo apenas como alguém que transmite uma informação ocasional.
Ele fala de uma atuação contínua na formação dos discípulos.
O Espírito Santo ensina.
O Espírito Santo faz lembrar.
O Espírito Santo conduz a comunidade cristã na compreensão daquilo que Cristo ensinou.
Isso começa a tocar diretamente o problema que motivou este livro.
Porque hoje ouvimos frases como:
“O anjo me ensinou isso.”
“O anjo me revelou uma doutrina.”
“O anjo me mostrou o que eu precisava fazer.”
“O anjo me explicou a vontade de Deus.”
Antes de aceitar essas afirmações, preciso perguntar:
Jesus atribuiu essa função aos anjos ou ao Espírito Santo?
Essa pergunta é o coração deste livro.
6.5 — “Ele vos fará lembrar de tudo”
Existe ainda uma característica impressionante na promessa de Jesus.
O Espírito Santo não apenas entrega informações novas.
Ele também faz lembrar aquilo que Jesus já ensinou.
Isso significa que a atuação do Espírito está profundamente ligada a Cristo.
O Espírito não chega para criar um novo centro de autoridade.
Ele conduz os discípulos de volta às palavras de Jesus.
Esse ponto será importantíssimo mais adiante.
Porque uma verdadeira obra do Espírito Santo não deveria nos afastar de Cristo.
Jesus mesmo afirma:
“Ele me glorificará.”
João 16:14.
Portanto, existe um princípio que começa a aparecer:
O Espírito Santo não compete com Cristo.
Ele glorifica Cristo.
Da mesma maneira, os anjos, quando aparecem legitimamente nas Escrituras, não estabelecem uma autoridade independente de Deus.
Eles servem ao propósito daquele que os envia.
Perceba como a investigação começa a formar uma estrutura:
Deus é a fonte.
Cristo é o Senhor e o centro da revelação cristã.
O Espírito Santo glorifica Cristo, ensina e guia os discípulos.
Os anjos servem como ministros enviados.
Não são funções idênticas.
6.6 — O Espírito Santo como Guia
Em João 16 encontramos talvez uma das declarações mais importantes para o nosso estudo.
Jesus diz:
“Quando vier, porém, o Espírito da verdade, ele vos guiará a toda a verdade.”
Vamos parar aqui.
Ele vos guiará.
Essa não é uma função pequena.
Ser guiado significa ser conduzido em uma direção.
E Jesus continua:
“porque não falará de si mesmo, mas dirá tudo o que tiver ouvido e vos anunciará o que há de vir.”
Aqui aparece novamente o princípio que já encontramos em Gabriel.
O Espírito não fala de maneira independente.
Ele está em perfeita relação com o Pai e com o Filho.
Mas existe uma diferença enorme.
O Espírito não é apresentado como um visitante externo que ocasionalmente aparece para uma pessoa.
Ele é apresentado como aquele que habita e guia.
Essa é uma das razões pelas quais precisamos ter muito cuidado quando colocamos anjos e Espírito Santo na mesma categoria.
Eles não estão desempenhando simplesmente duas versões da mesma função.
6.7 — “Ele me glorificará”
Jesus acrescenta:
“Ele me glorificará, porque há de receber do que é meu e vo-lo há de anunciar.”
João 16:14.
Essa frase funciona quase como uma bússola para nossa investigação.
Se alguém afirma ter recebido uma revelação espiritual, precisamos perguntar:
Para onde essa revelação aponta?
Para Cristo?
Para a Palavra?
Para a vontade de Deus?
Ou para o próprio mensageiro?
Essa pergunta vale para qualquer suposta experiência espiritual.
Inclusive para experiências com anjos.
Se uma experiência produz fascínio pelo anjo, dependência do anjo, busca pelo anjo ou autoridade espiritual atribuída ao anjo, precisamos parar e investigar.
Porque o padrão bíblico é diferente.
O mensageiro não deve ocupar o lugar daquele que enviou.
6.8 — O Espírito Santo não é um “anjo melhor”
Aqui precisamos estabelecer uma fronteira definitiva.
O Espírito Santo não é um anjo de categoria superior.
Não é um “superanjo”.
Não é um ser celestial mais poderoso.
Não pertence simplesmente à mesma classificação dos anjos.
O Novo Testamento apresenta o Espírito Santo dentro da própria identidade e obra divina.
Ele participa da obra de Deus.
Ele habita nos crentes.
Ele ensina.
Ele guia.
Ele testemunha.
Ele intercede.
Ele distribui dons.
Ele santifica.
Ele glorifica Cristo.
Portanto, quando este livro coloca “anjos × Espírito Santo” no título, o símbolo × não significa que estamos comparando duas espécies equivalentes.
Estamos comparando funções e atribuições.
Essa é uma distinção essencial.
A pergunta não é:
“Quem é mais poderoso: Gabriel ou o Espírito Santo?”
Essa pergunta já começa errada.
A pergunta correta é:
“Por que estamos atribuindo a seres angelicais funções que o Novo Testamento apresenta como obra do Espírito Santo?”
Agora sim estamos no centro do problema.
6.9 — E o que acontece depois do Pentecostes?
Existe ainda outro ponto que não podemos ignorar.
Jesus promete o Espírito Santo.
Em Atos 2, essa promessa se manifesta de maneira pública e extraordinária.
Pedro interpreta o acontecimento à luz da profecia de Joel:
“E acontecerá nos últimos dias, diz Deus, que do meu Espírito derramarei sobre toda a carne.”
A partir daí, o livro de Atos apresenta uma comunidade que passa a viver sob a direção do Espírito.
O Espírito fala.
O Espírito envia.
O Espírito impede.
O Espírito direciona.
O Espírito separa pessoas para determinadas tarefas.
O Espírito conduz a missão.
E isso será extremamente importante para os próximos capítulos.
Porque agora precisamos comparar cuidadosamente:
Como os anjos aparecem em Atos?
E:
Como o Espírito Santo aparece em Atos?
E talvez a pergunta mais interessante seja:
Quando os dois aparecem no mesmo período histórico, suas funções se confundem?
Essa será uma investigação muito mais precisa do que simplesmente perguntar se anjos continuam existindo.
A Bíblia já respondeu isso.
Sim, continuam aparecendo.
O que precisamos descobrir é:
qual é o papel deles?
6.10 — O ponto de virada desta investigação
Até aqui, eu poderia olhar para os anjos e dizer:
“Eles são mensageiros de Deus.”
E isso seria verdadeiro.
Poderia olhar para Gabriel e dizer:
“Ele foi enviado para transmitir mensagens.”
Também seria verdadeiro.
Mas agora encontro algo novo.
Jesus promete que o Espírito Santo:
ficará para sempre;
habitará nos discípulos;
ensinará;
fará lembrar;
guiará;
falará;
anunciará;
glorificará Cristo.
E Paulo acrescentará outra dimensão:
o Espírito intercede pelos santos.
Portanto, a partir deste ponto, a investigação deixa de ser apenas uma angelologia.
Ela passa a ser uma investigação sobre atribuição de funções espirituais.
Porque talvez o problema contemporâneo não esteja em acreditar demais nos anjos.
Talvez esteja em colocar os anjos em lugares que o Novo Testamento reserva ao Espírito Santo.
E essa possibilidade é séria demais para ser tratada apenas com opiniões.
Precisamos examinar os textos.
Precisamos comparar as palavras.
Precisamos observar os contextos.
Precisamos ouvir Jesus.
Precisamos ouvir os apóstolos.
E precisamos ter coragem para corrigir tanto a tradição quanto as nossas próprias ideias quando o texto bíblico exigir.
A pergunta continua diante de nós:
Estamos atribuindo aos anjos funções que o Novo Testamento atribui ao Espírito Santo?
Agora temos uma base para começar a responder.
E o próximo passo será ainda mais revelador:
quando o Espírito Santo começa a agir em Atos, o que acontece com a atuação dos anjos?
Não vamos supor.
Vamos investigar.